Source: (2006) en, Catherin Slakmon, Maíra Rocha Machado and Pierpaolo Cruz Bottini (eds.), Novas Direções na Governança da Justiça e da Segurança (Brasília- D.F.: Ministry of Justice of Brazil, United Nations Development Programme – Brazil, and the School of Law of the Getulio Vargas Foundation - São Paulo). pp. 621-642.

Como foi assinalado por certos observadores, palavras como igualdade, segurança, responsabilidade, proteção, ficam particularmente na moda em dada conjuntura. Nós as encontramos em diversos sistemas sociais e temos a impressão de que sempre estamos dando o mesmo sentido para esses termos. Deste modo, Klaus Günther (2002, pp. 105-106)1 indicava que o conceito de “responsabilidade” ou a idéia de “tornar responsável” parecia estar presente em todo lugar e que ele nos levaria a crer que estaríamos falando da mesma coisa. Os discursos que trazem esses termos atravessam diversos sistemas sociais, fluem naturalmente, são evidentes e evocam um tipo de slogan. Günther conta que uma multinacional farmacêutica inglesa fazia uma propaganda de vitaminas na qual se via um pai sorridente abrir seus braços para sua filhinha, enquanto aparecia uma única palavra: “responsability”. Günther assinala que tudo está dito e, no entanto, nada está suficientemente dito. Nessas circunstâncias, a palavra, diz o autor, não suscita nenhuma objeção direta e nem muita reflexão sobre a diversidade de sentidos que ela toma em cada sistema. Se consideramos de forma espontânea essa operação de transferência de conceitos ou simplesmente de palavras por um sistema qualquer, podemos ter a impressão de que se trata tanto de uma operação física quanto da transferência de uma obra de arte. Podemos supor erroneamente, por exemplo, que o sentido dado a essas palavras pelos diversos sistemas de recepção seja o mesmo e que as conseqüências lógicas que cada sistema dá à transferência que ele opera são parecidas (e positivas) em todos os sistemas. Ora, tais pressupostos me parecem muito questionáveis. Pelo contrário, devemos supor, enquanto hipótese, que cada sistema social trata suas palavras de formas diferentes, ou seja, segundo sua própria forma de pensar. Isso quer dizer que apesar de um mínimo de sentido compartilhado, que nos impede de confundir, por exemplo, “responsabilidade” com “liberdade” (comparar com Luhmann, 1971, p. 30-32), o sentido da palavra “responsabilidade” se modifica e sua construção varia de um sistema para outro. (extracto)